O processo de elaboração do luto é complexo e individual. Que demanda uma cansativa reorganização das nossas emoções no nosso mundo interno (Self) e diante do mundo externo, que é a vida que segue acontecendo de modo natural independente de termos sofrido uma perda significativa. Nesse processo, as memórias do ente querido desempenham um papel fundamental, pois representam a continuidade simbólica do vínculo e contribuem para a nossa reconstrução emocional. A manutenção dessas memórias não significa apego patológico, mas sim integrar a história da pessoa falecida ao próprio sentido de vida, favorecendo um processo de luto saudável.
A literatura em psicologia do luto, especialmente no campo da Teoria do Vínculo Contínuo, aponta que lembrar, rememorar e simbolizar são estratégias naturais de adaptação. A criação de rituais, a preservação de objetos significativos e o compartilhamento de histórias funcionam como mediadores que fortalecem a identidade, validam o vínculo e auxiliam na expressão emocional.
Práticas como escrever cartas, organizar um espaço de memória ou transmitir valores e ensinamentos da pessoa falecida contribuem para a construção de significados, etapa essencial na reorganização do sistema afetivo após a perda. Essas ações facilitam a integração da ausência em um novo modo de presença simbólica, emocional e narrativa.
É importante ressaltar que manter memórias vivas não deve ser confundido com idealização excessiva ou congelamento da relação. O processo saudável permite que as lembranças se transformem ao longo do tempo, acompanhando o amadurecimento emocional do enlutado.
Sendo assim, preservar memórias é uma ferramenta clínica e humana de cuidado, que favorece a adaptação, fortalece o vínculo interno e auxilia no processo de ressignificação da perda.
Aqui deixarei sugestões de rituais e técnicas para o cuidado com nossas memórias:
Alguns rituais podem trazer conexão e a continuidade simbólica das memórias, como acender uma vela ou fazer uma oração em datas importantes ou reunir amigos e familiares para falar sobre memórias.
Montar uma caixa de memórias, onde se é guardado objetos especiais do seu ente querido, como fotos, documentos, uma peça de roupa, cartas… a caixa pode ser decorada e um local de acesso seguro à suas memórias. A caixa de memorias proporciona uma ponte entre passado e presente, auxiliando a revisitar lembranças de forma organizada e acolhedora.
Conte histórias. Narrar memórias que envolvem nosso ente querido, contando momentos inusitados, marcantes, de superação e até engraçados é uma forma de manter vivo o significado da relação e ao compartilhar com outras pessoas você permite que o outro conheça seu ente através do seu olhar. As crianças podem se beneficiar muito desta técnica. Contar histórias é uma forma de continuidade afetiva.
Honre seus valores, ensinamentos e princípios, assim você transforma o amor em continuidade.
E por último, porém não menos importante, permita que a memória se transforme com o tempo, ela não precisa permanecer igual, ela pode amadurecer, mudar e se reorganizar, e isso não significa que você irá se esquecer da pessoa amada. É um movimento saudável e natural para reconstruir vínculos internos de forma saudável.
Manter viva a memória não é se prender ao passado, mas dar um lugar de pertencimento à história que vocês compartilharam. É reconhecer que o vínculo continua existindo, agora de outra forma.
Por: Letícia Rodrigues, psicóloga (CRP 09/8725)




